Em maio do ano passado, assistentes sociais de Monticello, Kentucky (EUA), descobriram que o garotinho Daniel Reynolds apresentava hematomas.

Em junho os mdicos disseram que a perna direita do garoto, que estava quebrada, parecia ter sido torcida at quebrar. Daniel foi colocado sob os cuidados de uma famlia adotiva temporria.

Em agosto, com o consentimento dos assistentes sociais, Daniel voltou a viver com a me.

E no incio de dezembro, segundo a polcia e os promotores, Daniel morreu de um soco na cabea.

"Quando voc v uma coisa como essas, fica doente", diz o promotor Robert Bertram, que acusou o padrasto pelo assassinato e a me e quatro assistentes sociais por cumplicidade na morte do menino de 22 meses de idade.

Os casos de abuso e maus-tratos de crianas continuam a chegar com persistncia desalentadora -cerca de 3 milhes de casos em 1993, segundo um relatrio entregue do Comit Nacional de Preveno do Abuso Infantil (NCPCA). O relatrio inclui os casos de 1.300 crianas que sofreram maus-tratos e negligncia que levaram  morte.

Algumas dessas mortes poderiam ter sido impedidas. De cada dez crianas que morreram, pelo menos quatro eram conhecidas dos funcionrios dos servios de proteo infantil. Muitas delas, como Daniel, foram retiradas de suas casas, mas depois enviadas de volta.

A crise americana de abuso infantil cresce quando as crianas nascem no mesmo ambiente de pobreza, dependncia de drogas e abuso em que seus pais foram criados. Ela cresce quando organizaes com financiamento insuficiente enviam assistentes sociais com carga excessiva de trabalho a lares infelizes e pobres, para "salvar famlias".

 este ciclo de maus-tratos e falta de cuidados -os 33% dos relatrios que citam "reincidentes" que j maltrataram crianas outras vezes- que suscitam o maior ultraje e indignao.

"Se eu estuprar ou espancar a criana do vizinho, no so assistentes sociais que cuidam de meu caso - a polcia", diz Patrick Murphy, cujo escritrio de guardio pblico do condado de Cook (Illinois) representa crianas que sofreram maus-tratos.

"Mas, se eu estuprar minha prpria filha ou espancar meu prprio filho, os assistentes sociais viro conversar comigo sobre como cumpro meu papel de pai ou como minha me cuidou de mim."

E as estatsticas mais recentes sobre abuso de crianas talvez reflitam apenas "50% dos casos que realmente acontecem", diz Philip McClain, dos Centros para o Controle de Enfermidades. " um problema gravssimo".

Problemas insolveis

Desde que um estudo feito em 1962 identificou pela primeira vez a "Sndrome da Criana Espancada", o plano de combate ao abuso infantil foi modificado repetidas vezes.

"No final dos anos 70 a assistente social tirava a criana do lar em que era maltratada", diz David Mitchell, juiz da Corte Juvenil de Baltimore, por onde passam centenas de casos de abuso todos os anos. "Nos anos 80 chegaram os advogados e os grupos de defesa, contestando aquela posio".

"Nos anos 90", diz ele, "passamos a adotar o 'modelo dos direitos dos pais', priorizando sempre que possvel a opo de deixar as crianas com seus pais".

Mas, segundo Mitchell, essa tica est mudando,  medida que se torna mais claro que "alguns pais talvez representem problemas insolveis".

Quer se trate de abuso fsico, sexual, emocional ou falta de cuidados, muitos casos de destaque assombram a memria do pblico.

As 19 crianas de Chicago encontradas num apartamento srdido. As meninas da famlia Schoo, cujos pais as deixaram sozinhas em casa enquanto tiravam frias no Mxico. Lisa Steinberg, de Nova York, espancada por seu pai adotivo at morrer, aos seis anos de idade, de danos cerebrais.

" por isso que o pblico se sente revoltado", diz Joy Byers, do NCPCA. "A verdade  que ele parece ver as mesmas histrias se repetindo sempre."

